faz de conta que é turista

Há uma hipótese mais plausível. É a de que, sacando tudo isso, o DJ fizesse só para agradar. Talvez até cumprindo ordens.

 

Era uma vez, eu frequentava uma boate chamada Amadeus. As pessoas que iam lá tinham entre 13 e 18 anos, e todas seguiam a moda.

 

Numa altura mais para a derrocada do lugar, tocava na rádio o refrão “sou playboy filho de papai, sou um débil mental, somos todos iguais”. O DJ do Amadeus resolveu botar isso na pista toda semana, e eu saía como forma de protesto e também para beber mais um alexsander. Os meninos, porém, ficavam lá, pulando juntos, felizes da vida. Acusados de playboys.

 

Muitos desses meninos, a maioria talvez, eram contínuos (gostaram?) com liberdade financeira para, depois de 44 horas, pagar entrada para fazer valer o dinheiro gasto antes no ted lapidus e na camisa de listras verticais. Meninas: “esse é boy… de escritório”.

Muitas dessas meninas eram recepcionistas. Desdenhar era parte de todo o gigantesco esforço que elas faziam.

 

Eu estava ali em missão normalizadora. Deixava os óculos em casa e não enxergava nadica, por isso perdi um menino que eu gostava.

Perco também os recentes votos para cronista: nunca consegui observar o DJ. De modo que não posso entender o que o levava a projetar em Gabriel Pensador seu desejo de ter senso crítico, nem como ele foi tão facilmente enganado pela propaganda que aqueles meninos faziam de si mesmos.

assombrações populares do brasil

 

A recente substituição da ciência do folclore pela antropologia acarretou uma transformação na maneira de se analisar os depoimentos de velhinhos que presenciaram entidades. Dá-se mais ênfase ao discurso sobre esses míticos seres do que às características que permitem identificá-los facilmente, nas encruzilhadas, em noites de lua nova.

 

Diante disso, com medo que a sabedoria popular perca sua eficácia, decidi publicizar esse case que minha bisavó contou para a menina antes mesmo de falar de perigos então mais prementes, como o onipresente Lobo Mau.

 

Trata-se da lenda do musculoso gaudério do pampa, que assombra a vida das gurias seduzidas sem mijar nem sair da moita. Carreteiro ou violeiro invariavelmente, ele percorre o Brasil visitando suas mulheres de cidade em cidade. É mestre na arte de desaparecer e na de aparecer, cerca de quatro vezes por ano, no portão da tua casa, te convidando pra tomar um sorvete na pracinha como se nada tivesse acontecido.

 

Ele parecia um sujeito bonzinho, é o que contava minha bisa, que meio tantã. Só foi descoberto que era o musculoso gaudério do pampa porque um padre, que atendia vários grupos de jovens, me contou que ele tinha andado de mão dada e visitado os pais de uma guria de Caxias do Sul, quinze dias depois de me procurar em Passo Fundo. Eu não tinha querido encontrar com ele, então, mais outros quinze dias, tendo saído de Caxias, ele deixou uma carta dizendo que me amava. Foi quando o padre mostrou que ele só podia ser a dita assombração e todo mundo fez cruz-credo.

 

Com isso se prova que, com esse método, nas palavras da minha bisavó, o musculoso gaudério do pampa consegue cobrir todo o território nacional.

 

Não tendo meios reconhecidos pela Igreja para lidar com a entidade, minha bisa teve que desenvolver uma simpatia própria para exorcizá-la. Ela chegou a ser publicada em um livreto chamado “Mil simpatias”, vendido em bancas durante o ano de 1988 (Cocktail, p. 134), e segue aqui transcrita:

 

PARA DESENCANTAR O MUSCULOSO GAUDÉRIO DO PAMPA

 

 

Ao ouvir o som da carreta ou da viola do Musculoso Gaudério se aproximando, olhe o relógio e persigne-se, depositando toda a sua confiança nesse gesto. Vá reto até o portãozinho quando ele bater palmas, sem desviar do caminho e diga nessa ordem as seguintes palavras quando ele perguntar como vai:

 

 

“Está tudo um mormaço graças a Deus. Estou indo nas filhas de Maria e parei de ler livros difíceis graças a Deus. A gente faz churrasco com a tchurma da igreja e tem tido um divertimento sadio graças a Deus. Agora só ouço música que está na moda e parei de fazer serviço comunitário com aquela indiada graças a Deus. Minha vida está mais simples que nunca e só o que desejo é pintar esse portãozinho de branco glória a Vós Senhor”.

 

 

No dia seguinte, rigorosamente no mesmo horário, pinte o portãzinho de amarelo, que serve para atrair dinheiro e livrar-nos de todos os males, exceto olho gordo.

 

 

 O guia não oferece, tampouco tive oportunidade de perguntar à minha bisavó, mas acredito que, na falta de alguns ingredientes, podem ser encontrados substitutos. Testei, em circunstâncias diferentes, trocar tchurma da igreja por galera da facul, churrasco por churras, filhas de Maria por malhação, ler livros difíceis por me alugar com literatura, serviço comunitário por ativismo e graças a deus por massa. O único termo que me pareceu ter impacto inigualável foi indiada.

 

No entanto, galera do mestrado (aham) não obtém o mesmo efeito que galera da facul, podendo-se usar ambiguamente povo da academia. Sempre se vai pensar antes que os churrascos são com mocinhas da hidroginástica, o que no meu caso é mais que verossímil.

 

O poder dessas palavras encantatórias reside, segundo minha bisavó, na seguinte razão:

 

Ele pode dizer que te jura amor eterno porque sente falta do teu sexo, mas o que quer é ficar registrado nos diários das gurias tri-up-to-date pra algum tipo de futuro histórico.

 

Todo ser mitológico tem sua falha trágica, e a do musculoso gaudério do pampa é a vaidade, sendo pela vaidade que igualmente ele seduz suas vítimas, dotadas desse mesmo defeito. Aparentemente, a coisa do sexo tinha um peso maior para a geração da minha bisavó porque, naquele tempo, o musculoso gaudério do pampa desvirginava suas seduzidas, coisa que nos dias de hoje se revela impossível.

 

Nunca é demais lembrar que essa conquista do feminismo revolucionário tem salvo milhares de vidas nas últimas décadas.

 

Mas esse – um final sempre conveniente para a ciência do folclore – já é outro causo…

t é de s, que traiu deleuze

Inicialmente, essa confissão era para o número experimental da rasgo (mostro em breve), mas aí vi que não saí de mim, e que esse vai ser um exercício indispensável para uma edição revista e ampliada. Mas no que toca ao projeto, acho que um dos vetores possíveis é Deleuze. Vejo uma conexão entre pessoas que têm com ele algum tipo de relação afetiva/intelectual e pessoas que podem se interessar por rasgo.

Agora posso simplificar o texto, porque é para Lôpe Sabrina.

Pois eu fui num encontro de pesquisa em teatro. Era um encontro acadêmico, com docentes para fazer o debate. E, de todas as falas que vi, a minha foi a única que não saiu com uma recomendação para incluir Deleuze na conversa. Estou me batendo com uma escritora de sensibilidade clássica, e na área de letras. Embora possa me considerar do teatro, pois já comi o lanche da padaria América, e embora tenha pirado um monte (para falar em bom português) com Mil platôs há alguns anos, acionei meu transtorno de múltiplas identidades e escrevi para o orientador, contando o fato como uma piada, pois quando se é uma pessoa das letras sempre se pode fazer piada com as pessoas do teatro e suas manias.

Logo que volto pra casa, descubro que tem um livro de Deleuze sobre teatro, em bom português, e que devo lê-lo, mesmo se for desmentida.

Poucos meses depois, termino o namoro. Existe um momento morto entre aquele em que você para de ler e a hora de dormir, o momento em que você conta seu dia para alguém. E existem inúmeros momentos na vida em sociedade em que o mundo parece um imenso clube de suingue em que pessoas solteiras não entrassem. Esses momentos, passei todos assistindo ao abecedário, uma entrevista com Deleuze.

Um tempo depois, bebo com uma amiga que terminou o namoro. Ela passa todas as noites assistindo ao House. Diz que teve um sonho com o doutor e a psicóloga perguntou:

– Mas o que o House é para você?

Ao que ela respondeu:

– Um amigo.