assombrações populares do brasil

 

A recente substituição da ciência do folclore pela antropologia acarretou uma transformação na maneira de se analisar os depoimentos de velhinhos que presenciaram entidades. Dá-se mais ênfase ao discurso sobre esses míticos seres do que às características que permitem identificá-los facilmente, nas encruzilhadas, em noites de lua nova.

 

Diante disso, com medo que a sabedoria popular perca sua eficácia, decidi publicizar esse case que minha bisavó contou para a menina antes mesmo de falar de perigos então mais prementes, como o onipresente Lobo Mau.

 

Trata-se da lenda do musculoso gaudério do pampa, que assombra a vida das gurias seduzidas sem mijar nem sair da moita. Carreteiro ou violeiro invariavelmente, ele percorre o Brasil visitando suas mulheres de cidade em cidade. É mestre na arte de desaparecer e na de aparecer, cerca de quatro vezes por ano, no portão da tua casa, te convidando pra tomar um sorvete na pracinha como se nada tivesse acontecido.

 

Ele parecia um sujeito bonzinho, é o que contava minha bisa, que meio tantã. Só foi descoberto que era o musculoso gaudério do pampa porque um padre, que atendia vários grupos de jovens, me contou que ele tinha andado de mão dada e visitado os pais de uma guria de Caxias do Sul, quinze dias depois de me procurar em Passo Fundo. Eu não tinha querido encontrar com ele, então, mais outros quinze dias, tendo saído de Caxias, ele deixou uma carta dizendo que me amava. Foi quando o padre mostrou que ele só podia ser a dita assombração e todo mundo fez cruz-credo.

 

Com isso se prova que, com esse método, nas palavras da minha bisavó, o musculoso gaudério do pampa consegue cobrir todo o território nacional.

 

Não tendo meios reconhecidos pela Igreja para lidar com a entidade, minha bisa teve que desenvolver uma simpatia própria para exorcizá-la. Ela chegou a ser publicada em um livreto chamado “Mil simpatias”, vendido em bancas durante o ano de 1988 (Cocktail, p. 134), e segue aqui transcrita:

 

PARA DESENCANTAR O MUSCULOSO GAUDÉRIO DO PAMPA

 

 

Ao ouvir o som da carreta ou da viola do Musculoso Gaudério se aproximando, olhe o relógio e persigne-se, depositando toda a sua confiança nesse gesto. Vá reto até o portãozinho quando ele bater palmas, sem desviar do caminho e diga nessa ordem as seguintes palavras quando ele perguntar como vai:

 

 

“Está tudo um mormaço graças a Deus. Estou indo nas filhas de Maria e parei de ler livros difíceis graças a Deus. A gente faz churrasco com a tchurma da igreja e tem tido um divertimento sadio graças a Deus. Agora só ouço música que está na moda e parei de fazer serviço comunitário com aquela indiada graças a Deus. Minha vida está mais simples que nunca e só o que desejo é pintar esse portãozinho de branco glória a Vós Senhor”.

 

 

No dia seguinte, rigorosamente no mesmo horário, pinte o portãzinho de amarelo, que serve para atrair dinheiro e livrar-nos de todos os males, exceto olho gordo.

 

 

 O guia não oferece, tampouco tive oportunidade de perguntar à minha bisavó, mas acredito que, na falta de alguns ingredientes, podem ser encontrados substitutos. Testei, em circunstâncias diferentes, trocar tchurma da igreja por galera da facul, churrasco por churras, filhas de Maria por malhação, ler livros difíceis por me alugar com literatura, serviço comunitário por ativismo e graças a deus por massa. O único termo que me pareceu ter impacto inigualável foi indiada.

 

No entanto, galera do mestrado (aham) não obtém o mesmo efeito que galera da facul, podendo-se usar ambiguamente povo da academia. Sempre se vai pensar antes que os churrascos são com mocinhas da hidroginástica, o que no meu caso é mais que verossímil.

 

O poder dessas palavras encantatórias reside, segundo minha bisavó, na seguinte razão:

 

Ele pode dizer que te jura amor eterno porque sente falta do teu sexo, mas o que quer é ficar registrado nos diários das gurias tri-up-to-date pra algum tipo de futuro histórico.

 

Todo ser mitológico tem sua falha trágica, e a do musculoso gaudério do pampa é a vaidade, sendo pela vaidade que igualmente ele seduz suas vítimas, dotadas desse mesmo defeito. Aparentemente, a coisa do sexo tinha um peso maior para a geração da minha bisavó porque, naquele tempo, o musculoso gaudério do pampa desvirginava suas seduzidas, coisa que nos dias de hoje se revela impossível.

 

Nunca é demais lembrar que essa conquista do feminismo revolucionário tem salvo milhares de vidas nas últimas décadas.

 

Mas esse – um final sempre conveniente para a ciência do folclore – já é outro causo…

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se mia descrença pode ter slogan

O que é que são, com mil diabos, essas próteses? Quando coloco uma joelheira estou a lembrar o mundo e a não me esquecer de que sou de matéria orgânica, que meus ossos e cartilagens frágeis doem e cada machucado se torna, inexoravelmente, uma piora em minha condição. Estou a lembrar da carne e da morte. Quando coloco uma joelheira sou quase tudo, menos ciborgue. Quando coloco uma joelheira, estou despida da aparência de super-homem que uma artista dos tempos do corpo-máquina deveria necessariamente exibir.

O grande impedimento no caminho entre o animal e o super-homem.

O grande impedimento na ponte entre mim e o corpo sem órgãos.

Os joelhos.

Que são desconstrução. Prova de que a natureza é falha.

Que são desnaturalização. Provocam a inexistência de deus.

Que estão no caminho dos carros, com o para-choque desenhado para nos pegar nesse ponto fraco.

Que estão no caminho da guerrilha, principalmente na hora de se descer das montanhas.

E que se alastram, chegando ao inominável.

Aquele que só pode ser sussurrado.

O que nos escritórios se pronuncia como piada, mas que sabemos que também é consequência do trabalho nos escritórios.

Ciático.

Nervo que é doença.

coleção de patetismos

existe um motivo pelo qual estou frilando como revisora numa agência de publicidade. começa, como diria ana maria braga, com din. mas, que lástima!, termina aí também, e eu perco a chance de ter um trabalho no qual tenho certeza de que sou muito boa para dar prioridade a outros, tão difíceis que às vezes faço muito mal.

hj está circulando o convite para um chope corporativo. o motivo é o lançamento do calendário do mês de setembro, uma folhinha com a foto de uma estagiária. criatividade é a última coisa que se espera da publicidade.

ia mandar esse e-mail em resposta ao convite para a firma toda, mas isso significava começar uma discussão por e-mail coletivo, o que o astro.com me disse textualmente (não tenho certeza do significado dessa expressão, só tenho certeza de que estou revisando muitos livros traduzidos) para não fazer.

então voltei aqui, eu, que já escrevi minha dissertação, embora ainda queira fazer muitas coisas nela, o que é um clássico. sei que essa gente falante vai agora ironizar, mas precisava compartilhar meus sentimentos e não estou mais no facebook.
essa era a resposta por e-mail, a que não mandei:

gente,
olha que bonitinho o vídeo que fizeram do Mister Rogers (que apresentava um programa infantil na gringa):

“… Se vc já cultivou alguma coisa no jardim da sua mente,
Você é capaz de cultivar ideias no jardim da sua mente.
É legal ter curiosidade sobre muitas coisas.
Vc pode pensar e fazer de conta.
Tudo o que vc tem que fazer é pensar, e elas vão crescer.
Imagine que cada pessoa que vc vê é um pouco diferente de todas as outras do mundo.
Algumas podem fazer certas coisas,
E outras pessoas podem fazer outras.
Vc já pensou no monte de coisas que aprendeu a fazer?
[…]
Há muita coisa para aprender nesse mundo
e tem muita gente que pode nos ajudar com isso”

fora isso, numa situação mais pública e portanto mais democrática, recebi hoje por e-mail este abaixo-assinado do coletivo dente de leão:

não sustento quem me ofende: http://www.peticaopublica.com.br/?pi=P2012N28388

para apoiar a ação, deixei um comentário apressado no ótimo texto do rogério galindo na gazeta do povo — que, para seguir a proposta, não devo compartilhar. como no meio disso chegou muita coisa pra eu revisar, acabei cometendo um erro de concordância. a relação entre revisão e amor pela língua costuma ser bastante torta. a urgência de deixar o cérebro em casa pra poder realizar uma operação lógica também é.

PS: leiam esse texto também.

e mais uma denúncia no blogue da lola.