abóbra

Bora colaborar com marchinhas para a Carnavala DesenGreca Geral.

Sugeri essas:

Me dá uma carona no teu carro

Porque o busão tava puxado

Me dá uma carona no teu carro

Tu tem quem limpe o estofado
Me dá uma carona no teu carro

E tira selfie pro povo ver

Me dá uma carona no teu carro

E depois conta, lá na TV
Andei pra cá

Andei pra lá

O meu cheirinho vai te fazer vomitar

***

 

Tá se achando o Marquês de Pombal

Voltou pra vila para embranquecer geral

Se for o caso a gente faz Carnaval

Fantasiada de cristão de Portugal
Tá mascarado, não sei de quê

Mas é um partido acabando com o B

É meia-noite, chegou a hora

De ir pra rua fantasiada de abób’ra

Buscando por quê

O homem que não tinha sapatos chorou até encontrar o homem que não tinha pés.
O homem que não tinha pés deu a ele os sapatos que não precisava mais.

O homem que não tinha sapatos chorou até encontrar o homem que não tinha pés.
Ele comeu o homem que não tinha pés e continuou tentando descer o Everest, até perder os pés e encontrar outro homem que não tinha sapatos.

O homem que não tinha sapatos chorou até encontrar o homem que não tinha pés.
Logo, voltou a chorar. O homem que não tinha pés usava sapatos nas mãos.

O homem que não tinha sapatos chorou até encontrar o homem que não tinha pés.
Ele achou que dessa vez ninguém ia pisar nos seus dedos, mas o homem que não tinha pés se atrapalhou com as muletas assim que começaram a dançar.

O homem que não tinha sapatos chorou até encontrar o plácido homem que não tinha pés.
E prosseguiu chorando. O homem que não tinha pés nasceu sem os pés; o homem que não tinha sapatos já havia experimentado sapatos.

O homem que não tinha sapatos chorou até encontrar o homem que não tinha pés.
“Finalmente, amor, te encontrei”, disse o primeiro, e terminaram juntos de cruzar a fronteira.

O homem que não tinha sapatos chorou até encontrar o homem que não tinha pés.
O homem que não tinha pés tinha umas próteses muito massa. Coisa de filme.

O homem que não tinha sapatos chorou até encontrar o homem que não tinha pés.
Ele se contentou com tal ausência de pés.
Seu comportamento foi considerado uma lição de sabedoria e mencionado nos almanaques por muitos anos.

Pátio

– Oi, você que é o Uber?

Era uma figura incomum a se aproximar do vidro da Mercedes, mas, se tivesse reparado bem, o dono a teria visto abordando uma BMW quando deu a volta na quadra pra ganhar tempo. Olha para mim, foi a resposta, olha para mim, trabalharam tanto a vida inteira para que eu pudesse chegar até aqui,

– Você acha mesmo que eu sou um merdinha informal de um app?

– Senhora pra você, rapaz. Eu já virei a curva, várias curvas.

– E você acha que alguém no mundo ia comprar uma Mercedes pra virar…

– Ei, eu vou te dar nota zero. E digo mais – embora ainda olhasse para o carro, ela agora estava falando com as pessoas lá fora e não aceitaria interrupções – eu não vou entrar nesse carro. Pode ir embora, pode desistir que eu não vou entrar nesse carro.

Ela se afastou, ele está saindo do carro para responder.

– Meu deus, você vai sair? Eu vou denunciar pra urbe – grita, e já está fazendo.

Ela vira de costas, mexendo no celular. Tenta disfarçar com os três minutos de praxe, mas não é possível, porque percebe os aplausos silenciosos dos assimilados. Uma Ferrari está encostando a menos de dez metros dali.

Fazer do mundo um mercado mais macio

Todo dia uma nova faixa etária no Asperger
que não sabia
E se mais gente for descobrindo que é Asperger
como fica se o número chegar a ¼

Olha, se ¼ da população disfarça Asperger
como ficam a publicidade e as pesquisas de mercado
Se ¼ das pessoas está no shopping concentrada, com vontade de berrar
entre os ônibus na hora de atravessar a rua
quase fechando o corpo para sempre durante os comerciais
sem desconfiar que as promessas do sedutor
são meias-mentiras
Como fica se tiverem que admitir
que os banners animados são bofetadinhas
nos olhos de ¼ das pessoas

Beba-me: uma história nas águas da Serrinha

cropped-captura-de-tela-28.pngBeba-me é um jogo narrativo. É como um conto em que as coisas acontecem conforme o lado para onde você escolhe ir, momento a momento.

Ele foi feito durante o Interactivos16?: Água e Autonomia. O Interactivos começa com uma chamada aberta, este ano convocando artistas, cientistas e militantes para fazer coisas pensando nas águas da Serrinha do Alambari, APA localizada em Resende/RJ.

Fazer o jogo foi ideia da Hwa Young Jung, e ficamos duas semanas internadas na APA, mais uns dias retrabalhando as coisas na volta, com a Aline Furtado e o Sau Jác. A Fernanda Tosta desenhou e muitas pessoas queridas conversaram e testaram o jogo.

Uma coisa particularmente massa na Serrinha é que a APA foi uma demanda local. Todo mundo lá sabe o que está acontecendo e, mesmo com perspectivas diferentes, colocam na balança justiça social e ambiental, e o desejo de ver a mata secundária que se formou desde sua fundação, em 1994, se transformar em primária.

Entrevistamos pessoas incríveis. O nome delas está no final do jogo. A Aline também conduziu oficinas na escola, graças ao engajamento da diretora Ana. Tudo isso ajudou a construir uma história cheia de laços afetivos com a Serrinha, tanto personagem quanto cenário de Beba-me.

Espero que se divirtam com o jogo, vamos adorar saber sua opinião.

Novembro-dezembro de 2016.

*Para conhecer os outros projetos do Interactivos: http://interactivos16.info/

faz de conta que é turista

Há uma hipótese mais plausível. É a de que, sacando tudo isso, o DJ fizesse só para agradar. Talvez até cumprindo ordens.

 

Era uma vez, eu frequentava uma boate chamada Amadeus. As pessoas que iam lá tinham entre 13 e 18 anos, e todas seguiam a moda.

 

Numa altura mais para a derrocada do lugar, tocava na rádio o refrão “sou playboy filho de papai, sou um débil mental, somos todos iguais”. O DJ do Amadeus resolveu botar isso na pista toda semana, e eu saía como forma de protesto e também para beber mais um alexsander. Os meninos, porém, ficavam lá, pulando juntos, felizes da vida. Acusados de playboys.

 

Muitos desses meninos, a maioria talvez, eram contínuos (gostaram?) com liberdade financeira para, depois de 44 horas, pagar entrada para fazer valer o dinheiro gasto antes no ted lapidus e na camisa de listras verticais. Meninas: “esse é boy… de escritório”.

Muitas dessas meninas eram recepcionistas. Desdenhar era parte de todo o gigantesco esforço que elas faziam.

 

Eu estava ali em missão normalizadora. Deixava os óculos em casa e não enxergava nadica, por isso perdi um menino que eu gostava.

Perco também os recentes votos para cronista: nunca consegui observar o DJ. De modo que não posso entender o que o levava a projetar em Gabriel Pensador seu desejo de ter senso crítico, nem como ele foi tão facilmente enganado pela propaganda que aqueles meninos faziam de si mesmos.